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Infantilização das Equipas de Trabalho

Ironicamente, ou não, assistimos à infantilização das equipas de trabalho ao mesmo tempo em que os especialistas, CEO e DRH enaltecem as habilidades e o conhecimento dos trabalhadores como a fonte primordial do capital intelectual das suas empresas.

Quem é que estes agentes pensam que compõem as suas equipas de trabalho? Adultos capazes de tomarem decisões sólidas e ações fortes? Ou simulacros de adultos que necessitam que lhes segurem apertadamente as mãos para que ultrapassem cada etapa de um processo? A maioria, ainda que de forma talvez inconsciente, escolhe a segunda opção. Provavelmente, estão mais errados que certos!

A estupidificação da vida profissional corporativa começou com a era industrial e tem vindo a manter-se. O famoso slogan “Não és pago para pensar, por isso cala-te e faz o que te digo!” é mais comum do que todos nós fazemos crer nas nossas profundas enunciações. Poderíamos fazer um tratado sobre as causas desta infantilização, no entanto, permitam-me enunciar aquelas que, do meu ponto de vista, são as mais imediatas:

       1. O modus operandi da “indústria” da liderança

Nas últimas décadas, a “indústria” da liderança criou e cimentou o mito do “líder herói”, aquele indivíduo capaz de pensar e decidir sobre tudo e todos na empresa.

Se a empresa estiver em crise, o “líder-herói” surge como o homem capaz de tomar as decisões que levarão a mesma para um porto seguro. Tem-se vindo, desta maneira, a instalar um nível de expetativa sobre-humana na figura da liderança, esperando-se que o líder seja capaz de superar toda e qualquer situação que a organização enfrente.

Embora muitas empresas tenham sofrido, nos últimos anos, um achatamento hierárquico, as funções intermédias padecem igualmente de uma infantilização que, a partir de 2008, com a crise internacional, se agravou. Ao mesmo tempo que se pede pensamento crítico, inovação, ideias de melhoria, etc., sufoca-se qualquer iniciativa que possa, mesmo sem dados concretos, provocar algum erro. Assim, o mecanismo da infantilização vai afetando praticamente todos os níveis hierárquicos, sobressaindo um, dois ou três líderes heróis que sustentam toda a organização. A liderança de proximidade é uma quimera, permanentemente desvirtuada por formações enfastiantes, predominantemente teóricas, que não tocam no essencial: a autoliderança e os novos equilíbrios nas interações entre líderes e seguidores. Aliás, utilizar a palavra seguidor é, só por si, uma afronta ao politicamente correto. 

  1. Fossilização organizativa e desconexão com as expetativas dos sapiens atuais

A fossilização organizativa sustenta-se em premissas como a deslocação do poder das áreas de produção e marketing para a área financeira; não se correr riscos; adiamento permanente da solução de problemas; assunção de que a empresa é a melhor; que os clientes precisam da empresa; acirramento de conflitos de interesse; sistema de passa culpas; ocultação de informação e comunicação limitada. Este caldo proporciona a implementação de sistemas burocratizados e extramente normativos que fazem da empresa um “internato”. Adultos que na sua vida quotidiana tomam decisões sobre as suas finanças, sobre a educação dos filhos, participam em associações, têm consciência política e votam, são cognitivamente sãos e aptos, quando entram na empresa são transformados em crianças que é necessário vigiar. Põem-se na fila para marcar o ponto, muitas vezes são revistados e, cereja no topo do bolo, quando por mero acaso conseguem dizer que tiveram uma ideia, são pura e simplesmente ignorados.

Por outro lado, as expetativas que muitos sapiens atuais têm relativamente ao trabalho e à forma como devem ser tratados está nos antípodas desta fossilização organizativa. Com mais conhecimentos a diversos níveis, acesso a informação digital em permanência e desligados de qualquer contrato psicológico com as empresas, estas pessoas estão a adquirir um novo poder conferido aos seguidores. 

  1. Adultos “birrentos”

A insatisfação permanente da maioria dos colaboradores atuais com tudo e mais alguma coisa, incluindo as suas vidas pessoais, torna-os birrentos: a empresa tem um refeitório, mas a comida não presta; há distribuição de lucros, mas é muito pouco; existe uma festa de Natal, mas é uma chatice; há um dia que é necessário ficar para além do horário de trabalho, mas não se ganha para isso; é necessário fazer algo diferente da sua função, o melhor é queixar-se ao sindicato; o colega chateou-se com ele(a), o melhor é fazer queixa ao chefe, etc.  

Estamos perante um círculo vicioso em que a empresa infantiliza os colaboradores e estes contribuem para reforçar essa infantilização, desresponsabilizando-se, exigindo ser “motivados” para fazer o que quer que seja, personificando uma permanente insatisfação, mostrando uma incivilidade gritante e fazendo “birras”, o que acaba por, nalguns casos, justificar o modus operandi da organização.  

  1. Robotização dos colaboradores

Os casos mais flagrantes encontram-se nos Call Centers. Existem scripts para seguir, quer seja no atendimento ao cliente, quer seja nas vendas. Diga o cliente o que disser, do lado de lá a resposta repete-se até à exaustão. Pergunta que se impõe: não seria mais barato gravar todos os scripts? Por muito que a tecnologia esteja a mesclar-se com o homem, a maioria de nós ainda quer poder falar com alguém que escute o que dizemos e responda com coerência. E os homens e mulheres que estão sentados em frente a um computador horas e horas a repetir os mesmos scripts, a responder estupidamente sem qualquer possibilidade de criatividade, empatia e nalguns casos utilidade? São os mesmos que, no fim do seu horário de trabalho, retornam à sua forma de adultos, que tomam decisões, que vão estudar e que no dia das eleições vão votar!  

Estamos perante um paradoxo, somos infantilizados e infantilizamo-nos. Já nos habituámos a isto? É mais fácil esta forma de trabalhar e viver? Só querem que sejamos adultos numa esfera da nossa vida, ou somos nós que, na impossibilidade de sermos considerados heróis, optamos pelo silêncio ou pela birra?  

 

AUTORIA

Graça Marques
Licenciada em Economia com Pós-graduação em Marketing & Vendas e Pós-graduação em Mercados Financeiros. Certificação em Analista PDA. Tem Formação Certificada em Alta Direção de Equipas, Sales Training Succeed.